Saúde

Terapia em dia: cuidado real ou credencial social?

Vale entender o que está por trás dessa linguagem

Terapia em dia: cuidado real ou credencial social?
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Reparei numa coisa que tem se tornado comum, gente colocando "terapia em dia" na bio de aplicativo como quem mostra um selo de qualidade. E não é só isso. Palavras que antes só circulavam dentro de um consultório tipo: gatilho, trauma, tóxico, narcisista, não é sobre você, viraram vocabulário de conversa de bar, de treta de grupo de WhatsApp, de comentário de rede social. Tem gente que vê isso com bons olhos, tem gente que acha forçado, e eu acho que os dois lados têm um pedaço de razão.

Antes de mais nada, vale reconhecer o que tem de bom aqui, porque tem bastante. Durante décadas, falar de sentimento foi tratado como fraqueza e terapia foi coisa de "louco". Isso mudou, e mudou pra melhor. Mais gente com acesso a uma linguagem emocional que ajuda a nomear o que sente é, sem meio-termo, um avanço. O problema não é a terapia ter ficado popular. É o que acontece quando um vocabulário criado pra um espaço privado, de elaboração lenta e cuidadosa, passa a circular também como moeda social, num espaço público, rápido e cheio de plateia. E aqui mora a parte mais difícil de perceber, porque de fora é quase impossível diferenciar as duas coisas: alguém pode estar genuinamente processando uma dor, ou pode estar usando o vocabulário certo pra parecer alguém que processa dor. Às vezes é as duas coisas ao mesmo tempo, na mesma pessoa, no mesmo dia. Existe uma distinção simples que ajuda a separar isso: uma coisa é contar uma história, outra é digerir ela. Contar é falar do que aconteceu. Digerir é o trabalho mais devagar de entender o que aquilo deixou gravado, e o que fazer com isso. Compartilhar publicamente, num bar, numa rede social, costuma ficar na primeira parte. Não porque a pessoa seja falsa, mas porque o ambiente público não foi feito pra sustentar a segunda.

O sociólogo Pierre Bourdieu ajuda a entender por que isso ganhou esse formato específico de credencial. Ele descrevia como certos comportamentos funcionam como capital social, um jeito de sinalizar valor dentro de um grupo. "Estar com a terapia em dia" hoje ocupa, em alguns círculos, um lugar parecido com o que já ocupou ter lido determinado livro ou ter viajado pra determinado lugar: mostra que você é evoluído, autoconsciente, um parceiro ou amigo mais seguro. Isso não invalida quem realmente faz terapia com frequência. Só explica por que a frase virou tão comum de aparecer numa bio, mesmo quando ninguém pediu.

Mas tem uma pergunta que essa explicação sozinha não responde: por que justo agora, por que essa geração inteira sente essa necessidade de mostrar que está "trabalhando em si mesma". E aqui acho que vale trazer uma ideia mais funda, de um filósofo alemão do século 19, Friedrich Nietzsche, que ajuda a entender a raiz do problema.

Nietzsche descreveu um momento em que as respostas prontas pras perguntas mais difíceis da vida, quem eu sou, o que dá valor a mim, o que devo seguir, deixam de vir de fora, da religião, da tradição, da comunidade fixa onde cada um já nascia sabendo seu lugar. Ele chamou esse vazio de niilismo, e apontou dois caminhos possíveis diante dele. Um é afundar na sensação de que nada importa, então vale tudo, ou vale nada, tanto faz, o niilismo passivo. O outro é assumir a tarefa, difícil e corajosa, de criar os próprios valores, virar autor do próprio sentido, já que ninguém mais vai entregar isso pronto, o niilismo ativo.

É esse segundo caminho que a linguagem de terapia tenta ocupar hoje. Sem estruturas prontas de identidade, o único palco que sobrou pra responder "quem eu sou" é o próprio eu, exposto, em público. "Se conhecer", "trabalhar meus traumas", "virar a melhor versão de mim", tudo isso é uma tentativa real de autoria sobre a própria vida, e nesse sentido, é louvável.

O problema é a armadilha que mora logo ali do lado. Quando essa criação de sentido passa a depender de aprovação alheia, de quantas pessoas acharam aquele discurso bonito, maduro, admirável, ela deixa de ser criação genuína e volta a ser, disfarçada, o primeiro tipo de vazio. A pessoa acredita que está construindo a própria identidade, mas está seguindo um roteiro que a plateia aprova. Nietzsche tinha até um nome pra isso, moral de rebanho, o oposto exato do que ele defendia como caminho corajoso. "Terapia em dia" na bio pode nascer de um processo real, ou pode ser só esse roteiro, adaptado ao formato de aplicativo de namoro.

E existe também um cuidado mais prático que vale nomear, sem virar crítica pesada a ninguém: quando toda fricção comum de uma relação, um amigo que demorou pra responder, uma opinião diferente, passa a ser chamada de gatilho ou de comportamento tóxico, a gente corre o risco de perder a tolerância normal ao desconforto que qualquer convivência exige. Trauma e limites são reais. Vale só guardar essas palavras pra quando elas realmente descrevem o que está acontecendo, e não usá-las como atalho pronto pra evitar o incômodo comum de conviver com o outro.

Então talvez o convite dessa coluna não seja parar de usar essa linguagem, ela é útil, é um ganho, é acesso. É se perguntar, de vez em quando: quando eu digo essa palavra, é porque ela descreve exatamente o que senti, ou é porque ela soa bem, soa evoluída, soa como alguém que já resolveu isso? As duas coisas podem coexistir na mesma frase. Reconhecer isso já é, por si só, um pedaço do trabalho que Nietzsche chamava de niilismo ativo.

Se essa coluna te fez pensar em alguma palavra que você usa no automático, vale um minuto de pausa antes da próxima vez: ela ainda descreve o que você sente, ou já virou só um jeito de se apresentar?

Nos vemos na próxima semana, aqui no Ponto de Escuta.

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