Saúde

Dia dos pais: e para quem essa data dói?

Entre as fotos de ontem, teve gente que sorriu, gente que evitou abrir o celular, e gente que só queria que o dia passasse logo

Dia dos pais: e para quem essa data dói?
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Ontem foi dia dos pais, e o feed deve ter vindo cheio, foto antiga, mensagem de agradecimento, almoço em família, aquele carinho que a gente gosta de ver. Mas eu queria começar essa coluna falando com quem não sentiu nada disso. Quem rolou a tela e sentiu um aperto, quem evitou postar porque não sabia o que escrever, quem passou o dia inteiro esperando ele acabar.

Porque nem todo mundo teve um pai presente. Tem gente que teve um pai ausente, um pai que machucou mais do que cuidou, um pai que só existiu no nome do registro. E tem gente que teve um pai bom, e o perdeu, e ontem sentiu a falta dobrada, porque o mundo inteiro parecia estar celebrando algo que, pra ela, agora só existe em lembrança.

Se você é uma dessas pessoas, quero que essa coluna sirva de alguma coisa: você não precisa fingir que o dia foi leve. E não tem nada de errado com você por ele ter sido difícil.

Tem um conceito do pediatra e psicanalista Donald Winnicott que eu gosto de trazer nessas horas, o de mãe suficientemente boa, que ele depois estendeu também pra figura paterna. A ideia central é simples, ninguém precisa ser perfeito pra cumprir essa função, só precisa estar presente o bastante, seguro o bastante, disponível o bastante. E o inverso também é verdadeiro, um pai que nunca ofereceu isso deixa um vazio real, não imaginado, não exagerado. Reconhecer essa falta não é ingratidão, é honestidade com a própria história.

E aqui vale uma notícia que pode aliviar um pouco quem cresceu sem essa referência: o psiquiatra John Bowlby, que estudou a fundo o vínculo entre crianças e figuras de cuidado, mostrou que essa função não depende de sangue nem de título. Pode vir de uma mãe, de um avô, de uma tia, de um professor, de um padrinho, de qualquer pessoa que ofereça o que ele chamava de base segura, alguém que te dá colo pra sair e explorar o mundo, sabendo que pode voltar. Se você teve essa pessoa em outro lugar, você teve o essencial, mesmo que o nome no documento não combine com a data de ontem.

E pra quem perdeu o pai, seja há pouco tempo, seja há anos, existe uma ideia mais recente na psicologia do luto que eu acho bonita, e que vale a pena conhecer. Por muito tempo se pensou que enlutar era um processo com etapas, e que no final delas a pessoa deveria seguir em frente meio que soltando quem partiu. Pesquisadores como Dennis Klass, Phyllis Silverman e Steven Nickman propuseram outra forma de entender isso, a teoria dos vínculos contínuos, que diz o seguinte: a gente não precisa cortar o laço com quem morreu, o laço só muda de forma. E é por isso que datas como ontem doem de um jeito específico, elas reativam um vínculo que continua vivo, só que agora sem resposta do outro lado. Isso não é um sinal de que você não superou nada. É só amor que não teve pra onde ir naquele dia.

Não existe um jeito certo de atravessar uma data dessas. Tem quem prefira lembrar com carinho, tem quem prefira não pensar no assunto, tem quem sinta raiva antes de sentir saudade, e tudo isso pode acontecer na mesma pessoa, no mesmo dia, em horas diferentes. Nenhuma dessas reações precisa de justificativa.

Se ontem foi um dia difícil, hoje pode ser um dia mais leve, e tudo bem também se não for. Você não deve satisfação a um calendário.

Se essa coluna chegou até você depois de um dia dos pais complicado, talvez o cuidado possível hoje seja pequeno, um copo de água, uma mensagem pra alguém que também sabe o que você sentiu, ou só o silêncio de não precisar explicar nada a ninguém.

Nos vemos na próxima semana, aqui no Ponto de Escuta.

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