Todo mundo que foi criança já virou outra pessoa por um tempo. A diferença é que hoje quase ninguém de fora consegue ver a referência
Quando eu era criança, eu virava Power Ranger. Corria pela casa fazendo poção de Harry Potter com folha e água da torneira, jurando que aquilo tinha algum efeito. E, até hoje, adulto que gosta do assunto, se veste de cosplay, decora a casa com referência de filme e ninguém estranha muito. Passa como gosto, como hobby, no máximo como um jeito bonitinho de manter contato com a infância.
Aí chega uma geração fazendo, na essência, a mesma coisa, se apropriar de uma referência pra construir uma versão de si mesma, e a reação muda completamente. "Farmar aura" soa estranho, artificial, até motivo de piada pra quem nunca entendeu direito do que se trata. Então antes de ir mais fundo, vale explicar de onde vem: a expressão nasce do encontro de dois mundos. "Farmar" é gíria de jogo, significa repetir uma ação até acumular pontos, recursos, experiência. "Aura" é a presença que alguém transmite sem precisar dizer nada, aquele charme que se percebe mas não se explica. A combinação ganhou força mundial depois de um vídeo de um adolescente indonésio, filmado dançando de um jeito solto e confiante na proa de uma canoa, que viralizou globalmente e virou o modelo do que a internet passou a chamar de "aura farming", fazer algo, dentro ou fora de um jogo, que aumenta o quanto os outros admiram você. A partir daí, virou verbo, virou piada interna, virou um jeito de nomear, com humor, um comportamento que sempre existiu: cuidar de como a gente aparece pro outro.
E aqui já dá pra perceber que o comportamento em si não é novo. O que muda é o quanto a gente consegue enxergar de onde ele vem.
Power Ranger e Harry Potter chegaram até mim através de uma tela que qualquer adulto podia ligar também. Existia um filme, uma franquia, um objeto comum que dava pra assistir, entender, achar bobo ou achar genial, mas pelo menos reconhecer. "Farmar aura" nasce diferente, de um vídeo de quinze segundos, dentro de um feed montado especificamente pra aquela pessoa, que muito provavelmente um adulto de fora nunca vai ver, porque o algoritmo dele é outro. Não é que o comportamento seja mais estranho. É que a fonte dele é ilegível pra quem está de fora daquele circuito.
Pierre Bourdieu, sociólogo que dedicou boa parte da obra a entender como reconhecemos o que é legítimo, chamava isso de capital cultural: a gente tende a validar como natural aquilo que compartilha o mesmo código que o nosso, e a estranhar o que foge dele, mesmo quando a função por trás é idêntica. Um adulto que cresceu assistindo Power Rangers reconhece ali um pedaço da própria infância. Um adulto que nunca viu o vídeo que originou "farmar aura" só vê um comportamento sem raiz, sem explicação, meio saído do nada. Mas não é do nada, é só de um lugar que ele não teve acesso.
E isso já aconteceu antes, mais vezes do que a gente costuma lembrar. O sociólogo Stanley Cohen cunhou um termo pra descrever exatamente esse padrão, o pânico moral: a forma como cada geração, em algum momento, olha pra uma expressão cultural dos mais novos e a enxerga como ameaça, exagero ou esquisitice, só porque não teve contato direto com ela. Aconteceu com o rock nos anos 50, com Dungeons & Dragons nos anos 80, com videogame nos anos 90, mais recentemente com K-pop. É sempre o mesmo mecanismo se repetindo.
Mas tem uma pergunta que a comparação histórica sozinha não responde: por que agora, e por que com essa intensidade. E acho que aí entra um fator específico dessa geração, que vale a pena entender com calma.
A maior parte desses jovens formou os primeiros traços da própria identidade durante a pandemia. Justamente na fase em que mais precisavam de gente ao redor pra se ver refletidos, ficaram isolados. O psicanalista Heinz Kohut, fundador da chamada psicologia do self, descrevia algo que ele chamava de necessidade de espelhamento, a ideia de que construir uma personalidade estável depende, desde muito cedo, de ser olhado com atenção e admiração por alguém, de literalmente ver esse brilho de reconhecimento nos olhos do outro. Não é vaidade, é ingrediente básico de formação. E foi exatamente esse espelho que faltou, no momento em que mais era necessário, pra uma geração inteira.
Isso ajuda a explicar a intensidade que a gente vê hoje. A necessidade de ser visto não desapareceu durante o isolamento, só ficou represada. Quando o mundo reabriu, essa geração encontrou nas redes um jeito rápido, disponível o tempo todo, de finalmente conseguir aquele espelhamento que não teve. Erik Erikson, autor central quando o assunto é adolescência, já descrevia essa fase da vida como um período de experimentação de identidade, que normalmente acontece com o material que se tem em mãos. Aqui, o material disponível era a internet, e a resposta veio em forma de curtida, comentário, visualização, tudo aquilo que confirma "existo, e alguém está olhando".
Então talvez a pergunta certa não seja "por que os jovens fazem isso". A resposta pra essa já sabemos, é sobre ser visto, sempre foi. A pergunta mais honesta é outra: por que isso parece tão estranho pra quem está de fora, sendo que, no fundo, é a mesma coisa que a gente sempre fez, numa linguagem que ainda não aprendemos a ler, vinda de uma geração que precisou recuperar, sozinha, um espelho que o mundo tirou dela num momento decisivo.
Se essa coluna te fez lembrar de alguma fase da própria infância em que você também virou outra pessoa por um tempo, talvez valha usar essa lembrança como ponte, da próxima vez que algo parecer estranho demais pra fazer sentido.
Nos vemos na próxima semana, aqui no Ponto de Escuta.