Saúde

Doar é um gesto de quem já fez as pazes com a própria finitude

No Brasil, quase metade das famílias diante da possibilidade de doar os órgãos de alguém que amam diz não. E, muitas vezes, o motivo não é falta de generosidade, é falta de conversa

Doar é um gesto de quem já fez as pazes com a própria finitude
Central Vidros Vidros sob medida para Pelotas e região

Um dado recente chamou minha atenção: no Brasil, a taxa de recusa familiar para doação de órgãos gira em torno de 45%. Quase uma em cada duas famílias, diante da pior notícia possível, decide não autorizar. E o que mais me tocou, segundo especialistas da área, não é que essas famílias sejam frias ou avessas à ideia. É que boa parte delas nunca teve, em vida, uma conversa clara sobre o assunto. A pessoa queria doar, talvez até tivesse comentado isso um dia, meio de passagem, mas a família chega ao hospital sem preparo nenhum pra decidir algo tão grande, em poucos minutos, no pior momento da própria vida.

Acho que isso diz menos sobre generosidade e mais sobre uma dificuldade bem mais antiga: a gente não sabe falar sobre morte. Trata como assunto de mau agouro, evita mencionar, empurra pra depois, como se não falar adiasse o fato.

A médica Ana Claudia Quintana Arantes, referência em cuidados paliativos no Brasil, dedicou um livro inteiro a desmontar essa evitação, "A morte é um dia que vale a pena viver". Ela descreve como a maior parte das pessoas vive apostando, sem perceber, numa espécie de ingenuidade: se eu não penso na morte, ela não me atinge. E o resultado dessa aposta é que, quando a morte finalmente chega, ninguém está preparado, nem pra viver aquele luto, nem pra decidir o que fazer diante dele, como no caso da doação.

Existe até uma explicação da psicologia pra esse afastamento coletivo. Pesquisadores como Sheldon Solomon, Jeff Greenberg e Tom Pyszczynski desenvolveram o que chamaram de teoria do gerenciamento do terror, a partir de uma ideia do antropólogo Ernest Becker: parte considerável do nosso comportamento social existe justamente pra manter a consciência da própria morte um pouco mais distante, porque encarar essa certeza de frente gera uma ansiedade que preferimos não sentir. Não é fraqueza individual, é um mecanismo quase universal. Só que esse mecanismo tem um preço, e a taxa de recusa em hospitais brasileiros é um desses preços.

Se você é alguém que já pensou em ser doador, o convite mais generoso que dá pra fazer, além da decisão em si, é conversar sobre isso com quem você ama, sem solenidade, do mesmo jeito que se fala de qualquer outro plano de vida. Contar com naturalidade não é pessimismo, é cuidado. É poupar sua família de precisar adivinhar sua vontade num momento em que mal vão conseguir pensar direito.

E se você é quem está do outro lado dessa história, esperando um transplante, quero que essa coluna também acolha isso. Existe muita gratidão nessa espera, mas também pode existir um peso difícil de nomear, a sensação estranha de que a própria vida segue porque outra terminou. Esse sentimento é comum, e não precisa ser resolvido às pressas. Muita gente que recebeu um órgão descreve, com o tempo, uma forma de carregar essa história com respeito, não como culpa, mas como lembrança viva de alguém que, mesmo sem saber quem você é, escolheu, ou teve escolhido por quem o amava, que parte da própria vida continuasse batendo em outro peito.

Ana Claudia escreve, em certo momento do livro, que as pessoas morrem como viveram. Acho que dá pra estender um pouco essa ideia: também doamos, e também recebemos, como vivemos. Encarar a finitude de frente, com honestidade, é o que permite que um gesto tão grande quanto esse aconteça com clareza, no lugar do medo e do silêncio de sempre.

Se essa coluna te fez pensar na sua própria vontade sobre esse assunto, talvez o gesto mais generoso de hoje não seja uma decisão, seja uma conversa. Fala com quem você ama sobre isso, antes que seja outra pessoa decidindo por você.

Nos vemos na próxima semana, aqui no Ponto de Escuta.

Notícias Relacionadas

Fale conosco!