Quando nomear vira um jeito de se perder.
Vivemos um tempo em que nomear virou urgência. Basta rolar o feed por alguns
minutos para encontrar listas de sintomas, vídeos explicando “sinais de ansiedade
que você ignora” ou testes que prometem identificar, em cinco perguntas, se você
tem TDAH, borderline, depressão ou burnout. E não é raro ouvir, no consultório ou
fora dele, frases como “acho que sou ansiosa”, “eu tenho TDAH, só não fui
diagnosticada” ou “isso que sinto parece muito com burnout”.
Essa é a cultura do autodiagnóstico, e ela merece ser olhada com cuidado, sem
julgamento, mas também sem ingenuidade.
Por muito tempo, falar de saúde mental foi um tabu. Sofrimento psíquico era
escondido, disfarçado,resolvido(quando resolvido)em silêncio. As redes
sociais, de alguma forma, romperam parte desse silêncio. Hoje se fala mais sobre
ansiedade, sobre limites, sobre saúde emocional. Isso é, sem dúvida, um avanço.
O problema é que, junto com essa abertura, veio também uma simplificação
perigosa: a ideia de que qualquer sofrimento precisa ter um nome técnico para ser
legítimo. Como se sentir tristeza sem saber exatamente o porquê, ou viver uma fase
de cansaço extremo, só fizesse sentido se pudesse ser encaixado em um rótulo
diagnóstico. E aqui mora uma armadilha silenciosa, porque nomear nem sempre
significa compreender.
Um diagnóstico, quando bem conduzido, é uma ferramenta clínica. Um recorte
técnico que orienta tratamento, ajuda a pensar estratégias, cria uma ponte entre
sofrimento e cuidado. Mas na cultura do autodiagnóstico, o rótulo muitas vezes
deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. “Eu sou ansioso” substitui “eu
estou passando por um momento de ansiedade”. “Eu tenho TDAH” substitui “eu
tenho dificuldade de concentração e preciso entender por quê”. A diferença parece
sutil, mas não é. Quando o diagnóstico vira identidade, ele para de abrir perguntas e
começa a fechá-las. A pessoa deixa de investigar sua própria história, suas
relações, seu contexto, porque já “sabe o que tem”. E aí se perde algo essencial,
que é a escuta.
Um diagnóstico psicológico ou psiquiátrico não nasce de uma lista de sintomas
isolada. Ele nasce de escuta clínica, de história de vida, de tempo, de investigação
cuidadosa, muitas vezes envolvendo mais de um profissional. Sintomas se
sobrepõem entre diferentes quadros. Cansaço extremo pode ser burnout, pode ser
depressão, pode ser uma condição clínica não psicológica, pode ser luto não
elaborado, pode ser várias coisas ao mesmo tempo, ou nenhuma delas.
Quando alguém se autodiagnostica com base em um vídeo de quinze segundos,
essa pessoa não está errada por sentir o que sente. O sofrimento é real, e isso
nunca deve ser minimizado. O risco está em pular a etapa mais importante do
processo, que é a investigação cuidadosa, feita com alguém capacitado para isso.
Autodiagnosticar-se pode, inclusive, atrasar um cuidado adequado. Se alguém já
decidiu que tem determinado transtorno, pode passar a buscar apenas confirmação,
e não compreensão. Tratamento eficaz não nasce de confirmação. Nasce de
entendimento.
Não se trata de silenciar quem busca respostas, muito menos de desvalorizar quem,
ao se reconhecer em um conteúdo sobre saúde mental, sente um alívio genuíno —
“não sou só eu”, “isso tem nome”, “eu não estou exagerando”. Esse movimento de
reconhecimento pode, sim, ser o primeiro passo importante de uma jornada de
cuidado. O convite aqui é que esse reconhecimento seja início, não conclusão.
Sentir algo que ressoa com um conteúdo sobre ansiedade, TDAH ou qualquer outro
tema pode, e talvez deva, ser o gatilho para procurar um profissional. Não para
confirmar um rótulo já decidido, mas para investigar, com tempo e escuta, o que
realmente está acontecendo. Porque o nome certo, dado da forma certa, no tempo
certo, tem poder de cuidado. Já o nome tomado às pressas pode se tornar uma
jaula, em vez de uma chave.
Talvez a pergunta não seja “o que eu tenho?”, mas “o que estou sentindo, e há
quanto tempo?”. Talvez o primeiro passo não seja procurar um rótulo, mas procurar
alguém disposto a escutar, com calma, o que ainda não tem nome. Porque, no fim,
cuidar de si não é sobre encontrar a palavra certa mais rápido. É sobre se dar o
tempo, e o espaço, de ser verdadeiramente escutado.
Nos vemos na próxima semana, aqui no Ponto de Escuta.