Instituto de Criminalística aponta intervenção de segunda pessoa; tenente‑coronel Geraldo Leite permanece detido
Gisele Alves Santana foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento que dividia com o tenente‑coronel Geraldo Leite Rosa Neto em 18 de fevereiro de 2024, em São Paulo. Um laudo pericial divulgado nesta terça‑feira (1º) descartou a versão de suicídio apresentada inicialmente e apontou, de forma inequívoca, a presença de um segundo agente na cena.
O que se constatou na perícia
O documento emitido pelo Instituto de Criminalística de São Paulo analisou o conjunto de manchas de sangue, lesões corporais e demais vestígios encontrados no local. Segundo o laudo, “a avaliação do conjunto de padrões de manchas e demais elementos objetivos identificados no local contradizem a hipótese de evento suicida”.
Além disso, o perito ressaltou que “a hipótese de intervenção de segunda pessoa resistiu ao confronto com a totalidade dos elementos objetivos examinados, não tendo sido identificado elemento material que a contradisses”. Em termos práticos, isso significa que a cena apresenta sinais de violência praticada por alguém além da própria vítima.
Entre as evidências que sustentam a conclusão estão:
- Marcas de pressão digital e escoriações compatíveis com estigma ungueal na face e região cervical, apontadas nos laudos necroscópicos do Instituto Médico Legal (IML).
- Discrepância temporal entre o disparo ouvido por vizinha às 7h28 e o chamado ao Copom feito por Geraldo Leite às 7h57, indicando quase 30 minutos de intervalo para acionar socorro.
- Fotografia tirada pelos socorristas que mostra a arma na mão da vítima, situação rara em casos de suicídio.
Reações de autoridades e da família
A família de Gisele contestou a versão de suicídio desde o primeiro dia. O advogado da vítima, José Miguel Silva Junior, declarou à Agência Brasil que o novo laudo “não traz surpresa, pois os laudos anteriores já descartavam a hipótese de suicídio”.
“Desde o início, nós sempre trabalhamos com a vertente de feminicídio. Os outros laudos são patentes também de que a Gisele não cometeu suicídio. E a perita, ao ser ouvida, deixou claro, em viva voz, que a Gisele não teria condições de cometer suicídio.” – José Miguel Silva Junior
O tenente‑coronel Geraldo Leite foi preso em 18 de março, em São José dos Campos, e permanece detido no Presídio Militar Romão Gomes, na capital paulista. A defesa tem apresentado questionamentos, mas, segundo o advogado, “a negativa do acusado está isolada nos autos”.
Uma nova audiência está marcada para a próxima terça‑feira (8), quando o réu será interrogado novamente. O Ministério Público já sinalizou que o caso seguirá como feminicídio, reforçando a gravidade da acusação.
Desdobramentos e implicações para a segurança pública
O caso ganha contornos de um dos mais emblemáticos feminicídios envolvendo membros das forças de segurança no Brasil. A confirmação de assassinato por parte de outro policial levanta questões sobre a cultura institucional, a proteção de mulheres dentro das corporações e a eficácia dos procedimentos de investigação interna.
Especialistas apontam que a presença de três mulheres policiais no apartamento horas após a ocorrência, para realizar limpeza, pode indicar tentativa de manipulação de evidências, embora ainda não haja conclusão oficial sobre esse ponto.
Para o Estado do Rio Grande do Sul, onde o portal “O Diário” tem forte atuação, o caso reforça a necessidade de políticas de prevenção à violência contra mulheres nas forças armadas e de mecanismos de controle mais rigorosos.
Contexto histórico e próximos passos
Desde o início das investigações, laudos necroscópicos apontaram lesões que não condiziam com um ato de suicídio, como a pressão digital na região cervical e escoriações de unhas. Testemunhas ouviram o disparo e relataram o atraso no acionamento do socorro. Esses elementos já alimentavam a suspeita de homicídio, que agora tem respaldo pericial definitivo.
Com a nova audiência marcada para o dia 8, o próximo passo será o interrogatório de Geraldo Leite, seguido de possíveis decisões judiciais que podem culminar em condenação por feminicídio. O Ministério Público já sinalizou a intenção de manter a acusação, enquanto a defesa tenta contestar pontos técnicos do laudo.
O caso de Gisele Alves Santana permanece como um marco na luta contra a violência de gênero dentro das instituições de segurança, exigindo atenção redobrada das autoridades e da sociedade civil para garantir justiça e prevenir novas tragédias.